A depressão económica mina o mundo. O desaparecimento de uma actividade económica e comercial intensa é acompanhado do retorno a uma economia natural baseada na agricultura e na permuta; a decadência das cidades e da moeda ocasiona uma fraccionação da vida social e um desmoronamento dos poderes. Por outro lado, os governos e os seus agentes perdem o domínio sobre os cidadãos, os quais se deixam conduzir passivamente ou procuram eximir-se o mais que podem às suas obrigações, pela fuga ou pela revolta, utilizando todas as escapatórias possíveis. O declínio do espírito cívico tem consequências particularmente graves sobre o recrutamento do exército; este é na totalidade composto de mercenários. Os bárbaros que espreitam as fronteiras encontrarão a fazer-lhes frente tropas leais, é certo, mas a que falta convicção patriótica. Enfim, as forças intelectuais e religiosas revelam tendência para se retraírem; a crise da economia e a decadência das cidades no Ocidente não propiciam de modo algum um verdadeiro movimento cultural.


HIP-EA-70













Vida Contemporânea — Revista mensal de estudos económicos, financeiros, sociais e literários. Director e proprietário: Cunha Leal (1888-1970). Francisco Pinto da Cunha Leal foi uma pessoa muito ocupada. Na década de 1910 foi director dos Caminhos de Ferro de Angola, esteve em França durante a 1.ª Guerra Mundial integrando o Corpo Expedicionário Português, voltou para ocupar o cargo de director-geral dos Transportes Terrestres. Apoia Sidónio Pais, é eleito deputado em 1918, participa na Revolta de Santarém de Janeiro de 1919. Na década de 1920 é ministro das Finanças, presidente do Governo, ministro do Interior, director dos jornais O Popular e O Século, reitor da Universidade de Coimbra, líder do Partido Nacionalista, fundador da União Liberal Republicana, apoiante do golpe de estado de 28 de Maio de 1926, opositor da Ditadura, governador do Banco Central de Angola. Em 1930 encontramo-lo preso, acusado de conspirar contra o Governo, e deportado para os Açores. Evadir-se-á, será amnistiado, em 1934-1935 dirigirá o jornal A Noite e a revista Vida Contemporânea, sendo deportado de novo em 1935. Nas décadas seguintes continua a dedicar-se à oposição ao Estado Novo.

[Fontes: Lexicoteca, Círculo de Leitores, Tomo XI; Manuel Amaral, O Portal da História, arqnet.pt]








A alma portuguesa caracteriza-se por uma doentia sensibilidade, que se manifesta por formas aparentemente contraditórias: por um lado, a exaltação hiperbólica das glórias do passado; por outro lado, a apreciação pessimista das misérias do presente. Somos como os velhos fidalgos excessivamente maltratados pelo destino, que se comprazem em exagerar a grandeza da sua queda, fazendo para isso subir a nível do ponto donde vieram e baixar o nível do ponto aonde chegaram. Somos ainda como o mendigo que, ao receber do transeunte parcamente caritativo a magra esmola, tem uma chama estranha a iluminar-lhe as pupilas e lhe diz com voz rouca e misteriosa: Ah! Se o senhor pudesse adivinhar o homem que eu já fui!

Há uma explicação plausível para êste modo de ser espiritual. A nossa história tem, como as histórias dos outros povos — nem mais, nem menos do que elas — altos e baixos, acções nobres e acções reles, façanhas heroicas e manifestações de poltronaria. Quiseram, porém, os fados que a trajectória portuguesa tivesse influenciado sobremaneira a evolução da civilização mundial e que, em grande parte, os nossos empreendimentos colectivos não estivessem em proporção com a nossa capacidade material, com as nossas possibilidades práticas de execução. Desta maneira, a história de Portugal surge como um fogacho, que se erguesse muito alto para logo quási se extinguir. Isto criou em nós a propensão para os sonhos épicos e para os contrastes bruscos da suma grandeza e da suma miséria.

Assim, pois, falta-nos equilíbrio espiritual e bom senso — qualidades aliás muito mais raras do que se supõe. Um exame de consciência, mesmo superficial, deve convencer-nos disso. Um grande esfôrço intelectual pode fazer-nos adquirir o sentimento das proporções, a noção das realidades universais, condição indispensável para que sejamos mais comedidos em quebrar a paz e sossêgo de que gozam nos sarcófagos das catedrais os «barões assinalados» dos tempos idas e para que possam tornar-se menos desageitados e mais eficientes os homúnculos fabricados em série pela fraqueza genética da era contemporânea. Oxalá as gerações presentes e futuras ousem lançar ombros à obra de resgate espiritual e de renovação material, requerida imperativamente pelas circunstâncias!

Que probabilidades de sucesso terá um empreendimento desta natureza? Carecemos de fôrça capitalista, carecemos de capacidade técnica, carecemos de preparação intelectual. A-par dêste passivo, muito para considerar, podemos inscrever no nosso activo alguns valores que não são também despiciendos. Temos um vasto domínio colonial, que nos permite esperanças de rehabilitação económica. Por outro lado, estamos assistindo neste momento, por êsse mundo além, ao curioso espectáculo dum capitalismo ou em transes de falência ou em via de mudar de pele, como os ofídeos. E, sobretudo, vivemos em época em que a consciência e a sensibilidade individuais e colectivas estão rompendo com os moldes clássicos. À primeira vista dir-se-ia que não poderia oferecer-se-nos melhor oportunidade do que esta para nos compenetrarmos dos interêsses, das paixões, das ideas e dos métodos de acção do homem contemporâneo, para nos aproximarmos dêle, galgando de vez a distância que dêle nos vem separando há muitas décadas.

O primeiro grande objectivo de qualquer programa de acção nacional tem de ser precisamente êste de conseguir a sincronização da mentalidade portuguesa com a dos povos civilizados. Todos os outros objectivos empalidecem e se tornam secundários em face dêste. Educar os elementos selectos da nossa sociedade, de modo a que se possam tornar depois os grandes apóstolos e propulsores da educação das massas, da sua europeização — tal é a idea que hoje se está enraizando em todos os sectores da vida portuguesa.

Se o acôrdo é quási unânime no que diz respeito ao enunciado do problema, já o mesmo não podemos afirmar no que se refere ao seu conteúdo. É que hoje em dia carece em absoluto de importância o tipo do europeu médio, que em tempos não muito distantes predominava, sob o ponto de vista espiritual e material, em tôdas as sociedades civilizadas do velho Continente. Os extremistas não passavam então de falanges reduzidas. Actualmente, nas massas populacionais da Europa o papel principal cabe a dois tipos irredutíveis, diametralmente opostos, a que correspondem duas mentalidades entre as quais não é possível estabelecer nenhuma espécie de contemporização.

Qual destas mentalidades deve ser tomada, como modêlo? Dividem-se, como é natura!, as opiniões. E, no meio da pugna acesa, quási não há lugar para os que, timidamente, pretendem entrincheirar-se em posíções ideológicas intermédias. Há, de facto, que constatar, com resignada calma, que, momentâneamente, é insignificante a função de todos quantos, não pondo limites à sua curiosidade intelectual, se não deixam, em todo o caso, arrastar pelo desejo de acção desordenada e frenética, característico da época contemporânea, e aspiram a que nem as suas ideas deixem de ter fôrça impulsora, nem o seu dinamismo deixe de ser sempre norteado por ideas consentâneas com «a eminente dignidade da natureza humana» — expressão que, a-pesar-de velha e revelha, não tem perdido em beleza com o uso.

Claro está que a onda do desvario há de ir perdendo em altura, à medida que se vá acalmando a tormenta económica que se desencadeou por êsse mundo além. A sucessão vertiginosa dos fenómenos económicos provocou a ruptura do equilíbrio espiritual e material que nos fôra legado pelo século transacto. Há que reconstituir novo equilíbrio com os materiais que a tempestade deixar amontoados no solo de civilizações que só podem renovar-se inteiramente pela acção providencial dêstes cataclismos. E a hora dos juízos calmos, que é preciso não confundir com juízos tímidos, há de voltar. A sua função educadora terá então a plena eficiência de que hoje, infelizmente, carece.

Teve a Vida Contemporânea a boa sorte de juntar em tôrno de si um escol de homens cultos, que estudam os acontecimentos do seu tempo com imparcialidade e interêsse, Alguns nomes eminentes do nosso reduzido sector intelectual deram já ao primeiro numero desta Revista a honra da sua colaboração. Outros virão juntar-se a êles, animados uns e outros de profundo amor pela sua terra, não o exibindo, porém, com gritos ou afirmações de incómoda estridência, mas com actos dignificadores da sua condição natural de portugueses.

Estamos assim colocando as primeiras pedras dum edifício, que virá, porventura, a ser modesto, mas a que a nossa paixão quereria emprestar linhas sóbrias e harmoniosas. O passado será evocado de quando em quando, com calma, sem histerismos patrioteiros, mas com a consciência do valor da continuidade histórica no país que, dentro da velha Europa, há mais tempo soube estabilizar as suas fronteiras, defendendo-as eficazmente sem o auxílio de invencíveis obstáculos naturais. O presente será encarado como é, com as suas misérias, que não pretendemos ignorar, mas também com as suas possibilidades, que importa não desconhecer. O futuro será idealizado como se nos afigura que deva ser.

As portadas do nosso lar estão escancaradas para todos os portugueses de alma lavada e aberta ao progresso, que queiram vir trazer-nos, para a obra educativa do agregado nacional, a sua contribuição, grande ou pequena. que seja, porque esta Revista não é feita para registar apenas as opiniões dos consagrados. Aqui confraternizaremos, aqui sonharemos em comum as prosperidades duma pátria rejuvenescida, dentro da qual o homem tenha a consciência de que possui uma forte individualidade, curvando-se, em todo o caso, às exigências da solidariedade social. E, quando os acontecimentos e os homens pareçam apostados a desanimar-nos, recobraremos alento na contemplação de panoramas mais distantes, de perspectivas mais sedutoras.

A Vida Contemporânea, grata aos bons portugueses que acamaradaram na suas primeiras páginas, aguarda confiadamente a visita dos muitos que ainda hão de vir.

[in Vida Contemporânea, n.º 2, Junho de 1934]











































Pedro Neves Marques
"Imagética abreviada"
Rua do Patrocínio, 67 E, Lisboa
Terça a Sábado, 14:30 - 19:30
10 de Maio a 14 de Junho de 2008












Django era um male escort. Um rapaz moreno, esguio, de ombros redondos e cabelo encaracolado. Gostava de pôr uns Ray-Ban de lentes castanhas e hastes douradas que lhe saíam para fora da cara. Nos tempos livres escrevia. Conheci-o uma noite, num restaurante. Cruzámo-nos à entrada da casa-de-banho. Estava genuinamente distinto, de fato completo cinza-metalizado e gravata escura. Olhou-me, entreabriu os lábios bojudos e seguiu.

Nessa noite dormimos juntos. Descobrimos compatibilidades e afinidades de escrita. Planeámos projectos em conjunto, elaborámos uma fusão. Roubei-lhe umas personagens. Tinha-as muito bem delineadas e percebi que também ele era bem delineado e uma personagem, ou uma das suas personagens, porque foi vestir umas cuecas pretas, umas botas de cowboy beije, colocou um cigarro na orelha e foi-se pôr nesta figura em cima dos papeis que analisávamos, com a carne morena e as pernas de manequim cheias de vida, fazendo-me sentir demasiado vestido.

Django entrara no mundo laboral como house model no studio de uma fashion designer italiana, sedeada em Milão, num edifício de fachada amarela e de interior minimalista — chão em cimento, portas de vidro fosco e paredes brancas. Django vestia e despia protótipos como profissão e era apalpado por todo o staff, que verificava os ombros, os colarinhos, subia e descia botões. Mais tarde conheceu pessoas e percebeu que ganhava mais dinheiro acompanhando-as em roteiros de estilo e prometido requinte, audácia e intensidade. O estilo é sóbrio. A audácia é calculada.

Se o observarmos com uns binóculos de longo alcance, através de uma cortina transparente de um quarto de hotel, podemos vê-lo a dançar de botas e cuecas, em cima da cama, com os braços para cima, de mãos juntas e sovacos expostos. Estará a dançar sozinho ou com um amigo, eu por exemplo. Mas nunca faz um striptease para os clientes. Trata-os mal. Não aceita presentes, não faz programas de fim-de-semana. Não lhe pagam estadias. Não beija. É mau. É um duro negociador e os duzentos e cinquenta euros que lhe pagam por hora não incluem intimidades. Incluem uma leve percepção. A promessa adiada de um corpo revelado que se anuncia quente por baixo de uma camisa desabotoada nas primeiras casas.

Django é um teaser e adora mostrar as pernas. Dentro de um carro, seminu, na varanda, nos corredores de um hotel, numa discoteca obscura. Ontem juntava ao seu guarda-roupa favorito umas joelheiras pretas e uma t-shirt de alças. Estava no centro da pista de dança, electrizada, rodeado de zombies, e ondulava o corpo. Eu olhava-o nos olhos e nesse momento o som resvalou, desceu sobre a multidão como uma avalanche. Todos os sons juntos e distorcidos. O impacto causava surdez e loucura.


Nuno Marques Mendes














































Frederico Ferreira
Featuring Blasted Mechanism
"Tecnognose"
VPF Cream Arte, Galeria de Arte Contemporânea
Rua da Boavista, 84, 2º
Segunda a Sábado, 14:00 - 19:30
8 de Maio a 14 de Junho de 2008



Os discursos contemporâneos sobre a supremacia da ciência, os poderes ilimitados das novas tecnologias e a cibercultura integram um imaginário próprio, impulsionador de mitos, imagens e símbolos.

As novas tecnologias já não se centram na figura material da máquina e dos seus processos técnicos, mas na noção do virtual. Assim, também os antigos mitos industriais da mecanização da vida dão lugar aos novos mitos da cultura do virtual, que invocam imagens incorpóreas, avivando deste modo, a imaginação espiritualizada da técnica. Estas imagens assentam num fundamento ideológico que alia as realizações e aspirações tecnológicas a princípios característicos do gnosticismo.

Tecnognose, termo que dá nome à exposição, é utilizado para definir esta nova visão do mundo em que as tecnologias surgem como meios de superação do orgânico, do corpóreo, da efemeridade da vida, em suma, da condição humana.
Nesta mitologia transcendental, a figura principal é a representação de uma forma de subjectividade, liberta dos limites do corpo (ambição dos gnósticos), da identidade física, um ser de natureza espiritual (semelhante à dos detentores da gnosis), divinizado.

Em "Tecnognose", três corpos electrónicos, metafisicamente e moralmente neutros, suspensos no espaço, vão ganhando uma dimensão espiritual, que colocam ao serviço da humanidade, despertando um conhecimento (gnose) que permite o encontro do Homem com a sua essência eterna. Tal dimensão espiritual é-lhes transmitida por um computador ao qual eles estão ligados, através de um código sonoro que vai sendo assimilado e posteriormente difundido incessantemente.

Esta exposição dá continuidade a um trabalho conceptual e estético que Frederico Ferreira tem vindo a aprofundar. Através da intersecção dos domínios da arte e da ciência, o artista tem vindo a seguir uma linha de reflexão centrada em questões despertadas pelos médios que explora, a escultura e a multimédia. Peças de parede, de chão, suspensas são reflexões sobre a relação que o Homem estabelece com as novas tecnologias de informação e comunicação, os efeitos que estas exercem e a sua própria natureza. Interface #1 (2003), Interface #3 e #4 (2003), For Ever (2005), Between (2005), são alguns exemplos.

Através de um processo, com traços minimalistas, em que a obra de arte é inteiramente concebida pela mente antes da sua execução, nascem simultaneamente três esculturas sonoras que mantêm uma forte relação entre si a diversos níveis. Seguindo um vocabulário formal de reminiscências orgânicas proveniente de um imaginário que o artista tem vindo a aprofundar desde Pleroma (2007) estas esculturas são compostas por um núcleo plástico no qual está integrado o sistema electrónico.

Os núcleos plásticos são produto da repetição de uma determinada unidade modular, combinada de forma distinta, simétrica e assimetricamente, marca do efeito visual. Através de um movimento de torção processa-se o desequilíbrio da simetria que gera o surgimento de uma assimetria dinâmica, ou vice-versa. Estas estruturas por acção de um carregamento progressivo tornam-se centros de energia acústica, a qual é canalizada em diversas direcções, operando-se assim, a modelação do meio material envolvente — o ar. Portanto, nestas peças mutantes, factores como o tempo e o meio ambiente são transportados para os domínios da escultura.

Frederico Ferreira apresenta aqui uma abordagem ao campo expandido da escultura, em que o som, enquanto onda material caracterizada pela sua intensidade, altura e timbre, é encarado como limite do campo escultórico.

A harmonia entre as sonoridades que se propagam, concebidas pelos Blasted Mechanism, põe a descoberto, uma relação acústica entre as peças, qual orquestra de câmara, em que o maestro é o computador, e que nos sintoniza com o divino.


Mariana Roquette Teixeira

Frederico Ferreira nasceu no Porto em 1977. Licenciado em Artes Plásticas — Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Lecciona as disciplinas de Desenho e Figura Humana no curso de Design de Moda e as disciplinas de Design Básico no curso de Design Textil no Citex, Porto. Vive e trabalha no Porto.



































Nádia Duvall
Rua da Boavista, 84, 2º
Segunda a Sábado, 14:00 - 19:30
8 de Maio a 14 de Junho de 2008

































João Serra
Vera Cortês, Agência de Arte
Avenida 24 de Julho, 54, 1º Esq
Terça a Sexta, 11:00 - 19:00
Sábado, 15:00 - 20:00
2 de Maio a 14 de Junho de 2008


"Nos últimos anos tenho vindo a pensar os subúrbios de Lisboa num sentido extra moral. Quando acreditamos que uma certa fotografia mais não faz do que documentar, subtraímos-lhe muito do seu potencial. Ao isolar, apropriar e descontextualizar pedaços de realidade, a fotografia permite ver outras coisas dentro e fora da própria imagem. [...]"